A influência técnica antes da concorrência: como decisões são moldadas no ciclo pré-licitatório em projetos de engenharia

Existe um equívoco recorrente: acreditar que o processo decisório começa quando a área de Suprimentos publica uma RFP ou abre uma concorrência formal. Na prática, isso raramente é verdade.
A decisão – ou, pelo menos, sua arquitetura fundamental – é construída muito antes, dentro de uma dinâmica técnica e organizacional que ocorre nos bastidores.

Esse período prévio, muitas vezes negligenciado, é onde se forma a governança de decisão que orientará todo o processo subsequente.

 

🔍 A formação antecipada da decisão técnica

Antes da formalização da demanda, três áreas exercem influência direta e assimétrica sobre o desenho da solução e sobre os critérios técnico comerciais que serão adotados:

 

  1. Operação: moduladora do risco percebido

A operação, por estar diretamente exposta ao desempenho do ativo, influencia a decisão por meio de:

  • percepções de risco (segurança, continuidade, confiabilidade)
  • histórico de falhas e lições aprendidas
  • preferências por tecnologias já dominadas
  • resistência a soluções que aumentem complexidade operacional

 

Aqui ocorre um fenômeno crítico: a divergência entre risco percebido e risco real.

A operação tende a superestimar riscos de inovação, enquanto a engenharia pode subestimar riscos de implementação.
Essa tensão molda o nível de conservadorismo da especificação.

 

  1. Engenharia: definidora dos parâmetros estruturantes

A engenharia é responsável por traduzir necessidades operacionais em requisitos técnicos. É aqui que surgem:

  • especificações mínimas e máximas
  • premissas de projeto
  • tecnologias preferenciais
  • critérios de qualificação técnica
  • restrições de integração e compatibilidade

 

Esse conjunto de definições cria a janela de decisão, período no qual alternativas ainda podem ser avaliadas e comparadas.

Após essa janela, a solução tende a se cristalizar, reduzindo a flexibilidade do processo competitivo.

 

  1. Suprimentos: formalizador da governança

Quando Suprimentos entra no processo, a maior parte das decisões estruturantes já foi tomada. Seu papel é:

  • garantir compliance e isonomia
  • estruturar critérios técnico-comerciais
  • assegurar competitividade
  • mitigar vieses e conflitos de interesse

 

Suprimentos raramente define a solução – ele formaliza o que já foi decidido tecnicamente.

Por isso, sua influência é mais forte na governança do processo do que no conteúdo técnico da decisão.

 

🎯 Pergunta central: quem realmente influencia antes da concorrência?

A influência nasce na interação entre engenharia, operação e suprimentos — mas ocorre majoritariamente antes da formalização da demanda.

A decisão é moldada por:

  • quem identifica o problema
  • quem define requisitos
  • quem avalia riscos
  • quem estrutura critérios
  • quem participa da discussão na fase de pré-projeto

 

A concorrência apenas materializa uma decisão que já estava em construção.

 

🚀 Implicações para fornecedores e integradores

Para quem atua no mercado de engenharia, a conclusão é clara:

  • Influenciar após a publicação da RFP é tarde demais.
  • O momento estratégico é a fase de pré-especificação, quando a organização ainda está avaliando alternativas.
  • A atuação deve focar em:
    • reduzir risco percebido
    • demonstrar viabilidade técnica
    • apoiar engenharia na definição de critérios
    • fornecer referências e dados que sustentem decisões

 

Influência legítima não é pressão comercial – é contribuição técnica qualificada.

 

🧩 Conclusão

Concorrências de engenharia não são eventos isolados. São o resultado de um processo decisório complexo, distribuído e antecipado.
Quem compreende essa dinâmica não apenas participa do mercado – atua como agente técnico na construção das decisões.

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